13 de junho de 2013

Questão LGBT

Salve Galera!

    Infelizmente , muitos acham que há um exagero midiático sobre o assunto preconceito e direitos iguais em relação a galera LGBT. Enquanto continuar um alto índice de preconceito e , principalmente, violência contra pessoas que resolveram viver sua verdadeira vontade em vez de se auto-mutilarem psiquicamente por ter que fingir algo que não é, esse assunto precisará continuar em "voga".
    Principalmente, quando religião + política querem se meter na área da saúde mental, no caso, da Psicologia que é uma ciência. Esse absurdo do Silas Malafaia e Feliciano quererem suspender dois trechos de resolução instituída em 1999 pelo Conselho Federal de Psicologia - o primeiro trecho afirma que "os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades". E ainda querem Anular o artigo da resolução que determina que "os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica".
http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/06/1293331-com-bate-boca-votacao-de-projeto-sobre-cura-gay-e-adiada-novamente.shtml

    Alguns psicólogos da bancada evangélica alegam que a pessoa deve ter o direito de se curar com um psicólogo (de preferência cristão - indicado pelo pastor), caso deseje essa "cura"; mas a questão é que esse desejo acontece devido a pressão religiosa e social, ou seja, o sujeito não se aceita pelo fato do preconceito que sofre no meio em que vive, algo bastante torturante para emocional de qualquer pessoa e por isso, procuram dirigentes religiosos buscando uma cura que não existe.
 
    Se colocar no lugar da pessoa nessa situação nos dá uma ideia básica sobre essa questão : Imaginemos, em uma realidade em que o padrão social imposto pela religião e meio familiar sobre orientação sexual "certa", "aceitável" é homoafetiva, qualquer outra orientação é patologia ou pederastia ou algo maligno ;  mas FULANO tem desejos pelo sexo oposto e somente pelo oposto (hetero), mas para agradar família, Ser Aceito , Amado e Respeitado no meio em que nasceu e pelas pessoas que ama, busca forçosamente a viver como um gay. O que acontece com o sujeito em questão? Vive um alto sofrimento emocional, pois vive essa luta interna (conflito) devido ao que exigem dele versus o que ele é (sente).
   Óbvio que uma pessoa nessa situação, vai ficar muito desequilibrada emocionalmente e acaba sendo "forçada" a procurar uma suposta cura , visto que ninguém quer ser desprezado, odiado etc. Só que não existe cura, pois não é uma doença ou um transtorno, seria o mesmo que dizer fulano é  branco e quer se tornar negro (vice-versa), antigamente, ser negro era considerado uma patologia para os brancos, e sabemos que isso foi fruto do desconhecimento e, principalmente, preconceito racial , preconceito pela diferença da cor de pele.
    Em suma,  a função do Psicólogo é ajudar o outro a se aceitar como é por inteiro. Não só a psicologia , mas outras áreas científicas corroboram essa questão da não patologização dessa questão - neurocientistas e biogeneticistas já admitem que "A orientação sexual humana é uma característica multifatorial, influenciada tanto pelos genes como também pelo ambiente. Há fortes evidências de que o substrato neurobiológico para a orientação sexual já está presente nos primeiros anos de vida. Não há evidência de nenhuma variável ambiental controlável capaz de modificar de maneira permanente a orientação sexual de um indivíduo."
Leia mais : http://sbg.org.br/2013/03/manifesto-da-sociedade-brasileira-de-genetica-sobre-bases-geneticas-da-orientacao-sexual/

Vejam essa campanha linda que trata sobre essa questão:
"Quero saber como é não ser considerado uma doença por não agradar uma maioria. (...) Quero saber como é, não ter minha sexualidade negada, não ter que sentir essa dor aqui dentro ... não pensar em me matar. Quero saber como é, viver em um Mundo sem ódio , um mundo que não discrimina , um mundo no qual eu possa me sentir seguro sendo gay , bi ou hetero (...) Quero saber como é conhecer um sentimento de plena igualdade, ser parte de uma humanidade."





Boa Reflexão!
Dani Roses

8 de junho de 2013

O Lugar do Corpo: um espetáculo contemporâneo

Igor Teo | 8 de junho de 2013

Se o século XVII fora influenciado pelo pensamento mecanicista e as leis da física tudo explicavam, a partir do século XIX vemos a biologia ganhar importância como ciência. Hoje, somos herdeiros desta tradição, e com os avanços das pesquisas científicas, mais a “ciência que estuda os seres vivos” e suas ramificações têm tomado conta de nossas vidas. Seu objetivo: domar o corpo, esta fera incontrolável e extremamente perigosa ao poderio político e econômico. Mas como disse certa vez o escritor uruguaio Eduardo Galeano: “O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa”. Sendo assim, convido o leitor a festejar e embarcar num espetáculo em quatro atos por essa história.

Porém, antes de alguém se sentir enganado, aviso que tenho como objetivo neste texto pensar o lugar do corpo e todo o saber que se produz sobre e a partir dele na cultura contemporânea. Portanto, gostaria de adiantar logo de início que ao questionar a questão do culto ao corpo, tão característico de nosso tempo, não pretendo pregar nenhum tipo de moralismo, como se advogasse a favor de algum conservadorismo. Meu objetivo é pensar a centralidade do lugar do corpo em nossas preocupações cotidianas, levando em consideração suas causas e consequências, e mais do que ser uma crítica apenas pela simples atividade de criticar, pretendo que seja um estopim para pensarmos novas possibilidades.

1º Ato – Teoria e realidade

Podemos entender todas as teorias, científicas ou não, como metáforas. Isto é, teorias são instrumentos conceituais que nos permitem compreender fenômenos específicos, mas nunca são o próprio fenômeno em si. Teorias são como mapas: nenhuma teoria é idêntica à realidade, apenas tenta se aproximar ao máximo dela para servir de base para entendê-la.

Imagine que uma teoria é um GPS, indicando caminhos que devemos seguir. Se o GPS informa que sobre o rio há uma ponte, mas em nosso caminho não avistamos nada além de uma queda, vemos que há uma falha nesse mapa, e por bom senso não devemos seguir por este caminho. O processo de avanço do conhecimento é uma constante tentativa de adequação das teorias à realidade.

A partir do momento que acreditamos que uma teoria é um mapa seguro, passamos e nos guiar pela realidade através daquele mapa. Eventualmente, também passamos a enxergar a realidade da forma como o mapa nos diz que devemos enxergar. Em tempos históricos específicos, um modelo de visualizar a realidade passa a ter dominância sobre outros, guiando a maioria dos homens daquele tempo a pensarem de forma parecida. Até que surge uma nova forma de visão da realidade que questione a anterior e mude o que as pessoas acreditam ser do mais verdadeiro.

2º Ato - A metáfora biológica

Embora o conceito de biologia enquanto campo científico único e coeso só tenha emergido no século XIX, ao longo do século XVIII áreas como botânica e a zoologia já haviam se tornado campos de estudo profissionais. Ao longo deste período, naturalistas de diversas áreas tiveram uma série de descobertas propiciadas pelo avanço instrumental da época (como por exemplo, o microscópio) que influenciaram não apenas seu próprio campo, como também outras áreas de conhecimento. Teorias da biologia foram apropriadas por outros campos e utilizadas como modelos de explicação para diferentes fenômenos.

O sociólogo Émile Durkheim, por exemplo, diferenciava dois tipos de solidariedade. Na solidariedade mecânica o indivíduo é socializado homogeneamente com seus semelhantes no seio de um mesmo tipo coletivo. Já na solidariedade orgânica, são as diferenças sociais que unem os indivíduos pela necessidade de troca de serviços e pela sua interdependência. Por acaso ou não, com esses termos Durkheim retoma o paradigma mecanicista e o biológico (orgânico), hierarquizando-os.

Já Francis Galton acreditou que poderia aplicar as ideias da seleção natural de Charles Darwin na sociedade, e através do que chamava de eugenia, poderia levar a humanidade a melhorias hereditárias. Suas ideias se disseminaram e no Brasil até início do século passado o movimento eugenista se preocupava com a questão racial, propondo medidas como o fim da imigração de não-brancos e desencorajando a miscigenação. Mas como bem sabemos, não foi apenas no Brasil que ideias raciais tiveram péssimas consequências.

Entretanto, nos enganaremos se acreditarmos que essas ideias ainda hoje não resistem. Talvez não mais pela via racial, mas pela genética. Hoje buscamos nos genes explicações para a vida. Na questão da homossexualidade, por exemplo, a resposta que todos buscam é se é natural ou não. Como se o fato de algo ser natural fosse o único modo de legitimar como possível. Pois parece que se não estiver escrito na lei da natureza, não deve ser permitido. Deixamos de ir às missas, mas ainda procuramos por mandamentos. Agora são os de Sua Majestade Natureza. Ou seus sacerdotes que podem falar por ela: geneticistas, biólogos e cientistas naturais.


3º Ato – O Biopoder

Anatomia, fisiologia, biologia, genética, medicina… Saberes que buscam compreender, medir, categorizar, classificar e melhorar o organismo humano. Parece que o corpo deve ser domado. Mas por quê?

Michel Foucault dizia que vivemos em uma sociedade disciplinar. Disciplina é, dentro da lógica foucaultiana, a capacidade de organizar com a máxima produtividade, sem desperdícios e com o controle preciso do corpo e do tempo. O poder disciplinar não reduz as forças, mas procura adestrá-las para melhor utilizá-las. Para existir a disciplina não é necessário que haja um poder coercitivo 24 horas por dia. Basta que o indivíduo internalize e acredite que aquilo é o melhor para ele. Deste modo, o indivíduo por si só não apenas seguirá como também será um grande divulgador.

A disciplina não se relaciona com um grupo específico, mas se espalha pelas organizações (escolas, hospitais, prisões, oficinas, indústrias, etc.), todas dispostas a fabricar indivíduos úteis à sociedade, todas com o objetivo de crescer as aptidões e o rendimento de cada indivíduo, e dentro do sistema capitalista, também o lucro que cada um deles pode gerar. O indivíduo não é oprimido ou reprimido, mas cuidadosamente fabricado para funcionar melhor dentro de um projeto político.

Não há o centro do poder ou uma elite secreta no comando, mas há uma rede múltipla de saberes normalizadores investidos pela ciência (psiquiatria, medicina, pedagogia, etc.) que reproduzem os discursos. E nós também reproduzimos diariamente este poder, sem questioná-lo, quando também queremos saber qual a melhor forma de sentar, a melhor forma de respirar, a melhor alimentação, a melhor forma de caminhar, o melhor exercício para se fazer na academia, o jeito mais saudável de se viver, e tantas outras formas de adequar o corpo a uma disciplina rígida que visa o seu próprio melhor funcionamento. Mas quando questionamos somos lembrados: “mas é o melhor para você”.


4º Ato – Da intimidade ao espetáculo

Durante muito tempo se falou em uma cultura da intimidade, num indivíduo introspectivo, no sujeito singular, da interioridade psíquica, na exacerbação sentimental e do egocentrismo. Entretanto, todo o romantismo da cultura ocidental desdobrou-se contemporaneamente numa intimidade que não está voltada para a reclusão do sujeito consigo mesmo. A intimidade é na contemporaneidade um espetáculo para todo o mundo assistir.

Redes sociais como facebook, twitter, tumblr, dentre outras, são ferramentas que fazem da vida privada um espetáculo diário acessível a todo um séquito de seguidores desconhecidos. A cena engraçada do churrasco da família vai para o Youtube, onde recebe milhões de visualizações e arranca risadas em países que nunca pensaríamos visitar.

A cultura é também somática. O artista musical tem o corte e a cor de cabelo que deve ser seguido. As celebridades o corpo perfeito para ser copiado. O programa da televisão dá as melhores dicas para manter o corpo sempre em forma. Todas estas características sempre sendo divulgadas como fórmulas garantidas para se alcançar o sucesso.


A cultura da intimidade e do espetáculo se unem na somatização da dualidade corpo e mente dizendo que o que você é interiormente deve ser exteriorizado no corpo. O corpo bonito, o corpo da moda, o corpo perfeito. Quanto melhor for o corpo, melhor sua interioridade irá parecer para os outros. Deste modo, suas possibilidades de sucesso consequentemente irão se potencializar. Sendo assim, cada vez mais vemos a busca pela perfeição corporal. Cirurgias plásticas e implantes variados de um lado, enquanto noutro aparecem na clínica psicológica casos de anorexia e bulimia.

A ciência busca um saber no corpo, enquanto a política se aproveita do mesmo. E a mídia faz disto tudo um espetáculo.

Epílogo – O Culto ao Corpo

Pois bem. Chegamos ao fim. Podem descer as cortinas.

Vimos que o corpo humano tem lugar central em nossas representações. Ele é alvo de investimentos libidinais, de desejos, do conhecimento científico e do poder político e econômico.

Mas não cabe aqui perder tempo recriminando algo. O corpo não é a raiz do mal, tampouco o ideal de salvação. Nada é essencialmente bom ou ruim. A culpa também não é da ciência ou da mídia. A maneira como lidamos e os fins que damos a nossas escolhas é que devem ser repensadas. Devemos nos responsabilizar por nossas decisões, e não a relegarmos aos outros.

Durante muito tempo na história ocidental o corpo foi visto apenas como um mero veículo passageiro que não merecia atenção ou como uma prisão que devia ser desprezada. Hoje, ele toma seu lugar de centralidade e sua reconhecida importância para o exercício da liberdade. Entretanto, não há mudanças sem efeitos colaterais. Melhor ou pior é impossível mensurar por existir mais variáveis em jogo do que podemos lidar, e tampouco importa, já que os valores sempre se adequam as necessidades imediatas do ser humano. De qualquer modo, a cultura somática tem efeitos que não podemos ignorar. Temos que de algum modo lidar com eles.

Bibliografia indicada para quem se interessou pelo tema:
O Vestígio e a Aura, de Jurandir Freire Costa.
Vigiar e Punir, de Michel Foucault.

1 de junho de 2013

Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

22 de maio de 2013

Cinco Estrelas e a Periferia

Salve galera , segue mais um Excelente relato do meu mano véio Eduardo Marinho.
No final o link do blog dele que é muito responsa ;-)
Boa Reflexão!
Daniele Roses


Tristeza profunda.  Três dias num hotel cinco estrelas, convidado pra um evento no centro de convenções do próprio hotel. O desjejum é tão farto e variado que fico sem saber por onde começar. Começo pelo café, como sempre – quase sempre fico no café, mas aqui não dá. Melão e mamão, dois pães com queijo, café antes e depois, pra arrematar. Olho a fartura ostensiva, funcionários preparam coisas na chapa, fazem sucos, garçons passam entre as mesas, tiram as coisas de quem já foi, atendem pedidos. Os invisíveis são chamados quando se derrama alguma coisa no chão, pra tirar rapidamente a sujeira, vestidos de cinza, entram e saem rápido, percebo que não são vistos pelos hóspedes além do mínimo necessário, sua passagem é em silêncio. Se cumprimento algum, o olhar é de estranheza. Afinal,  sou um hóspede e entre eles e os hóspedes há uma barreira invisível, mas intransponível. A naturalidade em usufruir dos privilégios sem perceber sua existência me incomoda. Não julgo, nem condeno, apenas me incomoda.

A exploração está explícita em toda parte neste ambiente, em cada centímetro que me cerca, mas ninguém percebe, ou não leva em conta. O fato é que parece natural e é isso o que mais me afeta. Os sentimentos de superioridade e inferioridade são palpáveis, embora artificiais e falsos. Os trabalhadores que tornam possível tanto luxo, privilégio e ostentação são em número muito maior do que os que estão no serviço. Vejo-os nas paredes, nas cadeiras e mesas, nas madeiras, metais e vidros, no enorme lustre de cristal pendurado no teto altíssimo do salão, nos sofás e almofadas caprichosamente distribuídos nos ambientes, na limpeza impecável e permanente, na comida que se come, desde o plantio e a colheita até o seu preparo, nas roupas de marca que se vestem, nos sapatos que se calçam.

Piscina, sauna, hidromassagem, campo de minigolfe, academia de ginástica, quadras de esportes, tudo à disposição – enquanto a população é sabotada nos direitos básicos, roubada e enganada pela estrutura da sociedade. Não usei nada, nos três dias em que fiquei. A maior parte do tempo, fiquei no quarto, no evento e fora do hotel. À noite, quando saía sozinho atrás de uma cerveja pra arejar o coração olhando o mar, fui aconselhado a ir para a direita, mais “seguro” e preparado pra atender os turistas, evitando o lado esquerdo, “perigoso”, próximo a favelas. Não sou turista, não gosto de hipocrisia nem de atendimento "qualificado", interesseiro e caro. Tomo o rumo da esquerda. Perigoso pra eles quer dizer pobre. E eu estava precisando tratar com gente pobre – como eu –, sem a subalternidade forçada dos ambientes de luxo. Os pobres de grana são inegavelmente mais transparentes, mais espontâneos.

Encontro uma birosca a uns quinhentos metros, a cerveja é de menor qualidade, mais barata, mas todos respondem quando chego dando um boa noite geral. Era desse conforto que eu precisava. “Madame, dá uma cerveja bem geladinha?” Ela sorri do “madame”, enquanto traz a garrafa. Levo a cerveja pra uma mesa fora, “vou sentar ali, viu, que vou fumar”. À distância, fico observando aquelas pessoas, umas dez, gesticulando, falando alto, trocando gozações, acho graça das gargalhadas, das piadas picantes. Do outro lado da rua, na parede de uma casa demolida, entre outras coisas, havia a frase “a miséria não acaba porque dá lucro”. Levanto pra pegar a segunda, levo a garrafa vazia, “pode deixar na mesa”, ela diz, respondo “melhor não, posso esbarrar na mesa, acaba caindo tudo, “tá, vou deixar aqui”, e encosta no canto do balcão. Põe outra e pergunta “tá geladinha, meu filho?” “Tá ótima, mãinha”, ela solta uma risada alta e me olha com simpatia. Sou mais velho que ela, mas não parece.

Pouco depois eu estava fumando, quando aparece um caboclo forte, atarracado, sem camisa e me pede um cigarro, com o olhar cenicamente suplicante. Estendo um na sua direção, sinto seus olhos bons, pergunto se toma uma cerveja comigo. Ele abre um sorriso sem dentes, “claro”, eu tiro a garrafa do isopor e vejo dois dedos de cerveja, entrego a ele. Ele vira no ato e toma de um gole. “Pega outra e um copo”, ele segura a garrafa vazia e me olha desconfiado, “eu, pegar outra?” “É, parceiro, eu pago e tu pega, mas se achar abuso, deixa que eu pego”, faço menção de levantar, ele se adianta, “não, podeixar”. No balcão, a dona estranha, “quequié, Jonas, já veio perturbar o freguês...” Eu interfiro à distância, “tranqüilo, madame, ele não tá perturbando não, eu que pedi, com mais um copo prele me ajudar aqui!” Ela entrega a cerveja e o copo, com a advertência, “olha lá, hein, Jonas!”, ele volta reclamando, “a senhora parece que não me conhece...”
“Então tu é o Jonas que morava dentro da baleia?” “Foi, mas lá era muito molhado”. Rimos e começamos uma conversa divertida. Em certa altura ele diz “minha inteligência não dá pra competir com a sua, não”, a fisionomia reflexiva, ele falava de informações, não de inteligência, mas pra ele era a mesma coisa. “Inteligência a gente não põe pra brigar, não, parceiro, melhor somar, que o inimigo de verdade tá do outro lado, é burrice a gente ficar brigando aqui em baixo”. Vejo identificação e afeto nos seus olhos, um entendimento intuitivo, “tem muita gente burra”, ele diz, “tem muita gente burra”, eu repito. E rimos. 

Em pouco tempo eu já sabia onde tinha maconha, cocaína, crack, mulher, “o que tu quiser tem, se quiser eu vou buscar agora”, “agora não, só trouxe a grana da cerveja, mas amanhã, se eu vender...” Uma mentira estratégica, mudou o rumo da conversa. “Tu vende o quê?” “Os desenhos que eu faço, olha aqui”, e mostrei a multidão estampada na minha camisa. Ele apertou os olhos, “tu que desenhou?”, “foi, olha meu nome aqui”. Ele se esforça, e-du-ar-do ma-ri-nho, com dificuldade. Um sentimento ruim passa por mim, lembro da sabotagem deliberada do ensino público, mas volto ao assunto, “quer ver a identidade?” Ele faz cara de ofendido, “tá pensando que não acredito em tu?” “Tu não me conhece, não acreditar é direito seu. É bom a gente respeitar o direito dos outros, né não?” “Ah, isso é”, e rimos de novo. Depois ele completou, “mas eu já sei que tu é um homem direito”. Foi como um afago na alma. Intuição, sentimento.

Voltei pro hotel, depois de cinco cervejas. Eu pretendia três, mas apareceu o Jonas...  Entrei no ambiente luxuoso, novamente a polidez distante dos funcionários, abismos entre pessoas. Subo ao quarto, questiono a tristeza que me invade nestes ambientes. Vejo as mãos que construíram isso tudo em cada centímetro e que, depois, foram expulsas pra bem longe e proibidas de voltar, mesmo pra apreciar o que fizeram. Os poucos pobres que se permite são o número suficiente pra servir os hóspedes e fazer a manutenção, com regras rígidas, sob um manto de invisibilidade social e ameaça de demissão a qualquer vacilada. Não é o fato de não poderem usufruir o que me incomoda, mas o de serem completamente esquecidas, ignoradas, como se nunca tivessem existido, como se tudo se construísse por si, como os castelos dos contos de fadas. Em geral, essas pessoas não desejam tais luxos e privilégios – até por acharem impossível –, mas apenas o suficiente pra viverem em paz, sem faltar nada do básico. Desejam o desenvolvimento dos filhos e uma vida digna. E isso lhes é negado. O modelo de sociedade imposto pelas influências irresistíveis de mega-empresas, de interesses empresariais, não permite que no centro da estrutura esteja o ser humano. Milhões de pessoas se encontram em condições de exclusão, miséria, ignorância e abandono, outros milhões são explorados impiedosamente em empregos precários, sem direitos ou garantias, apertados em transportes superlotados, sem tempo pra viver de verdade. Bilhões, a nível planetário. A estrutura da nossa sociedade tem nos seus alicerces não só o consumo e a propriedade, mas principalmente os desejos de consumo e posse induzidos nos que não podem consumir nem possuir. Estes são levados a desejar, a sonhar com bens e desfrutes, sonhos entorpecentes que imobilizam, aprisionam e anestesiam a consciência – contando com a ignorância planejada – provocando e estimulando movimentos que colaboram na manutenção desse sistema injusto, covarde, perverso e suicida. O planeta sendo destruído e as pessoas sonhando com novelas.

Tudo isto eu vejo nos requintes, nos luxos, nas pessoas, nos olhares e comportamentos, em tudo neste hotel, uma caricatura da realidade social. Exponho no seu centro de convenções, enquanto espero o momento de palestrar a essa audiência formada por futuros administradores de empresas e futuros empresários que se preparam pra administrar a(s) empresa(s) da família. Não sei bem o que dizer, mas sei mais ou menos. Acho que vai espantar. Pessoas que vêem a realidade da forma que lhes convém não gostam da maneira que eu vejo a sociedade em que vivemos todos. Mas fui chamado e vou jogar minhas sementes. Algumas exceções hão de se fertilizar. Não trago verdades, mas opiniões, não pretendo impor, mas acenar.

Por Eduardo Marinho

(Este foi um texto anti-depressivo. Melhorou o meu estado interno, por sentir alguma utilidade na situação.)

Antes de ir embora escrevi, no quarto, a saída do cinco estrelas. Segue.

A saída do cinco estrelas

Hotel Ritz Lagoa da Anta. Último dia, acordo cedo, vou tomar o café da manhã. Mais uma vez, observo e reflito. Fartura, movimentos, conversas, frutas, pães, queijos, presuntos, iogurtes, ovos, funcionários de cinza, garçons de branco, cozinheiras a postos atrás dos balcões, estantes de “selfisérvis”. As mãos dos mais pobres estão por todo lado. Os que usufruem nem se dão conta, não pensam, não lembram disso. Os de cinza às vezes passam, como sombras, sem olhar ninguém, levando esfregões e baldes ou empurrando carrinhos de utensílios. Vejo-os lá fora, preparando as coisas em torno da piscina. Vejo-os todo tempo, limpando vidros, mesas, arrumando coisas, sempre em silêncio. Aqui dentro, agora, os hóspedes tomam a primeira refeição e os de cinza só aparecem quando alguém derrama alguma coisa. Limpam o mais rápido que podem e desaparecem. São necessários mas não devem fazer parte da paisagem, devem ser o mais invisíveis possível. 

Novamente a tristeza, sem exagero, sem grandes sofrimentos, apenas uma tristezinha triste, não há surpresa, nada de novo. Hoje eu como mais do que nos outros dias, estou de saída e não sei se vou almoçar, prefiro  não. Volto ao quarto, arrumo a mochila e escrevo num bloco de papel, ao lado do telefone. “Ostentação de luxo e riqueza é pior do que a pobreza de grana. É pobreza de espírito. O próprio sentimento de superioridade demonstra a precariedade da alma.”

Daqui a pouco, quando eu sair, virá a funcionária para arrumar o quarto e conferir as coisas, a mesma com quem falei algumas vezes, perguntei a hora, dispensei a arrumação e a troca de toalhas. Não sei porque escrevi. Senti vontade quando cheguei do café e vi o bloco. Arrumei as coisas e resolvi deixar, como um recado. Espero que tenha algum proveito.
Agora vou.  




OBS: Uma entrevista do Eduardo na rádio legalize , ouçam que é muito bacana . A entrevista foi em 2012 , mas o contexto do papo é bem atual.




18 de maio de 2013

Sombra

Igor Teo | 18 de maio de 2013
Tema sugerido pelo leitor Leandro.

Talvez um dos conceitos mais famosos da psicologia analítica de Carl Gustav Jung seja o de Sombra. É possível encontrar referências a ela desde obras cinematográficas até na literatura de autoajuda. Deste modo, creio que falar deste tema não seja uma tarefa tão laboriosa, já que a maioria de nós possui certa familiaridade com seus pressupostos. Mas adianto que, como ferramenta teórica,  a ideia de Sombra deve ter certos cuidados por frequentemente nos levar a interpretar um estatuto transcendental e independente à mesma, como se o conceito se justificasse por si próprio.

De acordo com Jung, a Sombra é a parte da personalidade que a pessoa não reconhece em si mesma. Como na maioria das vezes os conteúdos que queremos ignorar em nós mesmos são características moralmente reprováveis, a Sombra tende a ser vista como a “parte negativa de nós”. Entretanto, não devemos levar isto como regra geral, já que aspectos positivos da personalidade podem eventualmente serem rejeitados. Porém, apesar de repudiada, a Sombra é parte integrante de nossa natureza, não podendo ser simplesmente eliminada. Mais além de sua negatividade, a Sombra é também fonte de espontaneidade, vitalidade e principalmente de criatividade.


Um aspecto importante de se compreender é sua tendência à projeção, isto é, que quando não reconhecida pelo seu portador, o indivíduo tende a projetar suas tendências indesejáveis em outros. É a pessoa que vive reclamando do defeito do outro, mas não percebe que aquilo que ela tanto aponta nas outras pessoas está muito mais presente nela própria do que em qualquer outro lugar.

O encontro com a própria Sombra é parte importante do que Jung chamava de Processo de Individuação. O reconhecimento de sua própria Sombra marca o primeiro estágio do processo analítico, que culminará com a integração da Sombra. A integração se constitui como um processo distinto da recusa e da aversão (que só alimenta ainda mais a Sombra) ou do oposto que seria se tornar a Sombra (se tornar o que você não quer ser).

O premiado filme Cisne Negro apresenta esta questão com maestria, onde Natalie Portman representa Nina, uma bailarina do espetáculo Lago dos Cisnes. Nina é uma jovem aspirante ao sucesso, dominada pela figura materna e emocionalmente insegura.  Vivendo uma vida excessivamente controlada, busca sempre pela perfeição. O papel do Cisne Branco não lhe oferece dificuldades, devido a sua característica doçura e delicadeza, mas para desempenhar o papel de Cisne Negro é necessário que ela penetre no lado sombrio de si mesma. No desafio de viver um papel que ela não está acostumada, Nina encontra seu psiquismo dividido entre sua personalidade de menina frágil e sua sombra de uma  mulher sedutora e espontânea.


Como ferramenta teórica, Jung nos trouxe um grande auxílio para compreensão de certos fenômenos. Porém, vejo com frequência o uso comum do termo quase como algo de existência própria e independente. Mas admito que não seja particularidade dela apenas, pois o mesmo ocorre frequentemente com termos como ego, superego, etc. Pois quando alguém diz “a minha sombra é assim” ou “isso é o ego”, lembro que não é sua sombra ou seu ego, mas você. Isto é, sombra e ego são ferramentas teóricas, nenhum existe de maneira delimitada e circunscrita dentro da sua cabeça ou seja lá onde for, mas simplesmente estão presentes no psiquismo. Deste modo, não há exatamente “a minha Sombra”, porque a sua Sombra é você.

11 de maio de 2013

Além da materialidade

Igor Teo | 8 de maio de 2013
No nosso último texto recebi um comentário de um leitor que, dentre outras coisas, dizia acreditar que “a psicologia é muito materialista e limitada, não tem condições de analisar por completo o ser humano, pois este último é muito mais do que um mero pedaço de carne”. Creio que tal afirmação merece uma análise mais detalhada, o que faremos agora.

Como é da praxe, sempre que queremos remontar ao significado de algo, apelamos para a etimologia da palavra. Psicologia vem do grego psykhé + logos, onde psique deriva do grego psychein (“soprar”), palavra que significava originalmente “alento” e posteriormente, “sopro”. Dado que o alento é uma das características da vida, a expressão “psique” era utilizada como um sinônimo de vida e por fim, como sinônimo de alma, considerada o princípio da vida. Logos por sua vez é geralmente traduzido como razão. Percebemos assim que psicologia poderia muito bem significar estudo ou conhecimento da alma.

Lembramos, no entanto, que a psicologia como ciência é algo recente. Sua história oficial data como início o laboratório experimental de Wilhem Wundt, em 1879. A escolha desta data não é por acaso. Sob influência da filosofia positivista, a ciência buscava abandonar toda metafísica, abordando suas questões a partir de uma perspectiva materialista, empírica e objetiva. Apenas quando a psicologia adquiriu um caráter experimental nos laboratórios que ganhou o status de ciência.

Entretanto, a psicologia não se reduziu a isso. Se antes mesmo já existiam, depois não faltaram vertentes que questionaram este modelo autoritário de ciência que exclui fenômenos que não se pautam pela mesma epistemologia. E nisso qualquer um de nós vai concordar com o leitor: o ser humano é de fato mais do que um pedaço de carne. Estamos atentos a isso na pretensão de compreender o que são pensamentos, ideias, sentimentos, emoções e suas respectivas condições de surgimento.


Óbvio que vozes e discursos de certos modelos científicos ainda existem. Há de fato organicistas que acreditam que pensamentos e emoções são apenas produtos de interações entre diferentes regiões do sistema nervoso, respostas do organismo às necessidades do ambiente e da sobrevivência. E ainda que não concordemos com eles, devemos perceber que possuem bons argumentos para isto. Antes de os criticarmos, podemos entender que diferentes modelos de entendimento podem coexistir e até se completarem na compreensão dos fenômenos. O aspecto metafísico dos pensamentos e sentimentos está assentado em bases biológicas, mas também existe além do mesmo, podendo o influenciar. Neurologia e psicologia hoje têm atuado juntas, e comparando com os estudos de computação, podemos dizer que enquanto uma se dedica ao Hardware, a outra trabalha com o Software.

De fato, além de componentes materiais, há algo nas cognições e emoções que é ditado por leis que não se encontram expressas em nenhum gene. Há um domínio de interações sociais não materiais que determinam os processos mentais. Por exemplo: um sujeito sofre grande estresse em seu trabalho. Este estresse diário faz com que ele desenvolva algumas desordens psicológicas que nos serão conhecidas como patologias. Uma perspectiva biológica reducionista poderia tentar medicá-lo, sedando as sensações que seu sistema nervoso recebe do ambiente de trabalho. O sujeito pensará até que está melhor, quando, na verdade, a aparente melhora não passa de uma “máscara”. O ambiente de trabalho continua sendo um lugar estressante, e que apesar do paciente não apresentar mais sintomas físicos, continuará sendo psiquicamente influenciado pelo estresse. Se hoje a medicação impede de aparecer sintomas, no futuro ele poderá apresentar problemas que marcaram profundamente sua história de vida.

Não estou aqui falando contra a medicalização, pois em muitos casos é necessária. Entretanto, é importante sinalizar que a banalização da mesma impede a promoção de uma saúde verdadeira. Cala-se o sintoma quando o mesmo é na verdade a expressão de que há algo errado na vida daquele sujeito, e que a causa também deve ser combatida, e não apenas a sua consequência. No exemplo, ações que busquem a melhora daquele ambiente ou mesmo intervenções clínicas que viessem a ensinar aquele sujeito a lidar melhor com suas questões podem vir a solucionar a situação sem todo o gasto financeiro que a indústria farmacêutica exige. Há uma diferença significativa no investimento em ações que realmente fazem a diferença, ao invés de tentar tapar buracos com palha. Tapar um buraco com palha não evita que alguém que pise nele venha a cair e quebrar uma perna, só o faz invisível, e a sua ilusão de inexistência só faz com que mais pessoas venham a pisar nele e também se machucarem.

Há um domínio de intervenções subjetivas que não se pautam pelo que chamamos de materialidade e que possuem grande efeito. Deste modo, não creio que podemos dizer que a psicologia seja materialista. Tampouco podemos dizer que ela é de algum modo metafísica. Há, todavia, certamente um domínio de intersubjetividade, que nos liga uns aos outros. Deste modo, prefiro pensar que a psicologia é apenas a psicologia, um campo muito grande e diverso de estudos e práticas acerca do ser humano. Suas limitações fazem parte de nossa própria condição de sujeitos num mundo complexo, e não apenas ela como qualquer outro saber está submetido a essas mesmas limitações. Sua eficácia está além de nossa crença ou descrença, mas comprovada em infinitos casos diários espalhados pelo mundo.


Internamente, a psicologia se divide em diversas escolas, que variam de acordo com suas próprias orientações epistemológicas, o que demarca a psicologia como um campo amplo, diversificado e complexo. Portanto, antes de a classificar, precisamos saber que existem diversas abordagens em psicologia, umas até se pautando pelo que pudesse a vir se chamar de materialismo, enquanto outras eu diria que não. Mas além do que simples opiniões, são todos conhecimentos sólidos e embasados por uma grande gama de estudos. E ainda que uma orientação não concorde em todos os aspectos com outras, sempre há um espaço de diálogo em que posições contrárias se complementam e trazem um maior entendimento acerca de nossas questões. Talvez seja ainda incompleto? Sim. Mas eu prefiro pensar que sempre há muito mais a descobrir e aprender do que acreditar já saber tudo de necessário e me dar por satisfeito com o pouco que já tenho. Nesta perspectiva, creio que uma “análise por completo” sobre qualquer assunto, vinda tanto da psicologia, como de qualquer outro conhecimento, como por exemplo, economia, sociologia, física, religião, ou qualquer filosofia,  seria uma fantasia utópica que pouco favoreceria o nosso desenvolvimento intelectual.
Por fim, Alan Moore nos conta uma piada (com o sempre presente fundo de verdade) para refletirmos sobre a eficácia simbólica através de Aleister Crowley em Promethea.

Havia dois homens dividindo um carro ferroviário. Eles não se conheciam, só estavam viajando juntos por acaso. Um dos homens tinha guardada em sua capa uma caixa de papelão, com buracos feitos no topo. Depois de um tempo imaginando o que havia dentro da caixa de seu companheiro de viagem, o outro homem não conseguiu conter sua curiosidade. Ele disse:
- Com licença, eu não pude deixar de notar sua caixa. Por acaso há algum tipo de animal aí dentro?
O outro homem sorriu e educadamente respondeu:
- Você está absolutamente correto. Há mesmo uma criatura dentro desta caixa. E na verdade, eu posso até revelar, que o animal em questão é um Mangusto.
Surpreso com a revelação, o homem que iniciou a conversa procurou uma explicação maior dessa informação, certamente provocativa, do estranho viajante:
- Um Mangusto? Senhor, eu confesso que não esperava que fosse uma criatura tão exótica e estrangeira. O animal que mencionou atiça tanto minha curiosidade que eu imploro para que diga mais. Qual sua relação com essa espécie, se me permite a ousadia?
O outro homem, meio constrangido, respondeu:
- Bem, é algo pessoal, já que se trata de uma tragédia familiar. Sabe, essa história triste é sobre o meu irmão mais velho. Ele sempre foi o que você poderia chamar de ovelha negra da família. Ele sempre se satisfez em vícios comuns e previsíveis, sendo o pior de todos seu apreço por bebidas fortes. Suas bebedeiras continuaram até ele chegar ao estágio final de melancolia, o delirium tremens. Meu irmão agora vê serpentes em todos os cantos, por isso estou levando este Mangusto para ele, para que possa se livrar delas.
- Me perdoe – o outro homem interrompeu, parecendo confuso – mas essas cobras que seu irmão vê não são cobras imaginárias?
Seu colega viajante responde:
- De fato. Mas esta – e aqui ele gesticulou dramaticamente para a caixa perfurada – é um mangusto imaginário.

10 de maio de 2013

Filme e ocultismo...

Olá a todos!
Já faz algum tempo que não posto por aqui e é bom estar de volta.
Hoje vou abordar um resumo inicial de um filme que assisti ontem. O filme é de 2009, seu título original é "the day the earth stood still" - "O dia em que a terra parou", com o Keanu Reeves (o mesmo que fez Matrix).
No filme, uma "raça alienígena" vem a Terra recolher informações de como os humanos são, como vivem e se comportam, sendo que as respostas não são nada animadoras.
Reeves se encontra com outro da mesma "raça", ao qual ele pede por informações a respeito de como os humanos são e seu "julgamento final". Este outro revela que os humanos são destrutivos, não conseguem viver em harmonia, estão sempre conflitando com alguma coisa, mas que acima de tudo, por pior que eles sejam, ele os ama, pois existe algo neles que ele não sabe explicar, mas os ama (Isso me lembra um certo  alguém que morreu na cruz para salvar a humanidade...).
Este filme, na minha opinião, é lotado, lotado de ocultismo. Do inicio ao fim, é algo extremamente surpreendente. Reeves chega a terra revestido por uma "placenta" - colocando em termos ocultistas - o manto do universo. Seu corpo tem a forma humana, mas não é definido, sendo uma mistura de branco com todas as outras cores (parecendo mesmo refletir uma galaxia inteira).
A nave da qual ele vem é a representação de um planeta... bem... uma sephiroth pra ser sincero =).
Ao aterrizar, um cerco é armado ao redor da nave e num ato precipitado, um tiro é disparado contra o "alienígena", despertando assim um robô que sai da nave - o guardião - e o defende quando sob ameaça.

Isso é um  apenas um pequeno resumo do que estou sintetizando sobre este filme incrível.
Vou trazer a resenha completa, com todos os detalhes ocultistas que eu conseguir enxergar, no próximo post.

Ainda estou "boquiaberto" com o filme e toda a riqueza que ele tem.

Obrigado a todos!

Rodrigo Tonin